Yuval Noah Harari compara a humanidade às vacas de uma fazenda. Mas o maior perigo da inteligência artificial talvez não seja deixar de entender o mundo: é perder o poder de influenciar o próprio destino.
Dados atualizados em 3 de novembro de 2026.
Imagine uma vaca vivendo numa fazenda.
Todos os dias, ela vê o fazendeiro, recebe comida e segue sua rotina. Mas não sabe que existe uma conta bancária, que o preço da carne subiu ou que uma negociação pode determinar seu futuro. Enquanto ela pasta tranquilamente, alguém pode estar decidindo se será vendida, transportada ou abatida.
A vaca participa de um sistema econômico que não compreende. E as decisões mais importantes sobre sua vida acontecem num mundo ao qual ela não tem acesso.
Essa é a provocação do historiador Yuval Noah Harari, em entrevista à televisão pública tcheca, em outubro de 2026. Para ele, a inteligência artificial poderá construir sistemas financeiros e jurídicos tão complexos que, em 10 ou 20 anos, os seres humanos deixarão de compreendê-los.
Não seria necessário haver robôs armados dominando cidades. O futuro poderia ser muito mais silencioso: decisões sobre dinheiro, empregos, leis e governos seriam tomadas por sistemas que funcionam acima da nossa capacidade de entendimento.
Mas será que não compreender essas decisões é realmente o maior problema? E se a inteligência artificial criar um mundo que simplesmente não precise mais de nós?
Por que as vacas não têm poder sobre o fazendeiro?
A vaca é útil. Ela gera o lucro da fazenda. Mesmo assim, não influencia nenhuma decisão, porque não pode cruzar os braços, se organizar ou ir embora.
Com os seres humanos, a história tem sido diferente. Empresas precisam de trabalhadores para produzir e de consumidores para comprar. Governos precisam de cidadãos para pagar impostos, votar e sustentar suas instituições.
Essa dependência nunca garantiu justiça, mas abriu espaço para a pressão. Quando trabalhadores entram em greve, sua ausência interrompe a produção. Quando eleitores se organizam, podem mudar governos. Ser necessário, sozinho, não basta. O poder nasce de ser necessário e, ao mesmo tempo, ser capaz de recusar.
A metáfora tem um limite, e o cenário humano pode ser pior. Uma vaca sem utilidade não fica na fazenda. O risco para a humanidade é perder as duas coisas: a utilidade econômica e a capacidade de recusar.
Numa economia em que máquinas produzem, sistemas administram empresas e programas analisam contratos, a produção e os lucros podem até crescer. Mas o que acontece com o poder de negociação das pessoas que já não são necessárias para gerar essa riqueza?
A perda de importância pode acontecer sem ninguém perceber
Quando pensamos nos perigos da inteligência artificial, é comum lembrar de uma máquina que se rebela. Mas alguns pesquisadores consideram outro cenário: a humanidade pode perder influência aos poucos, sem nenhuma revolta.
Paul Christiano descreveu, em 2019, uma situação na qual empresas e governos entregam cada vez mais decisões a sistemas automatizados. Uma empresa usa IA para aumentar a produtividade. Um banco automatiza a concessão de crédito. Um governo adota algoritmos para organizar serviços públicos. Cada mudança, isoladamente, parece razoável.
Com o tempo, porém, decisões importantes passam a depender de sistemas que poucos conseguem questionar ou modificar. Os indicadores mostram eficiência crescente, enquanto as pessoas perdem a capacidade de interferir nos resultados.
Em 2025, pesquisadores como Jan Kulveit e David Duvenaud aprofundaram essa preocupação em um trabalho sobre a perda gradual de poder humano. A IA poderia enfraquecer nossa influência em várias frentes ao mesmo tempo: na economia, substituindo trabalhadores; na política, concentrando recursos e capacidade de decisão; na cultura, influenciando o que consumimos e consideramos importante.
Essas mudanças poderiam se reforçar. Empresas que controlam tecnologias avançadas acumulam riqueza, a riqueza amplia sua influência política, e decisões políticas fortalecem sua posição econômica. Não é preciso uma inteligência artificial malvada. Bastam milhões de decisões aparentemente eficientes que, somadas, deixam as pessoas cada vez menos importantes.
E se os governos também deixarem de precisar da população?
Em alguns países ricos em petróleo, grande parte da receita do governo vem da exploração de recursos naturais, e não dos impostos pagos pela população. Isso pode reduzir a dependência do Estado em relação aos cidadãos.
Luke Drago e Rudolf Laine usaram essa lógica em The Intelligence Curse. Se máquinas produzirem grande parte da riqueza, empresas e governos poderão depender menos do trabalho humano, e a população perderia uma das principais formas de pressionar quem controla os recursos.
A comparação tem um limite importante. A Noruega vive de petróleo e segue sendo uma democracia sólida. Estudos sobre o caso norueguês atribuem esse resultado à qualidade das instituições que já existiam quando o petróleo chegou. A riqueza não determina sozinha o destino político: importa o que a sociedade construiu antes dela.
Esse cenário envolve dois riscos diferentes, que convém separar.
- Poder concentrado: as máquinas obedecem perfeitamente a seus donos, e o problema é o que poucos fazem com elas.
- Perda de controle: os sistemas ficam tão complexos ou autônomos que nem seus donos conseguem corrigi-los. Stuart Russell, em Human Compatible, propõe construir máquinas incertas sobre o que os humanos querem, para que aceitem ser corrigidas e desligadas.
E o Brasil?
O Brasil não precisa esperar por robôs para sentir o problema, porque boa parte da sua proteção social passa pelo emprego formal.
Em 2025, a arrecadação líquida da Previdência somou R$ 719 bilhões, recolhidos em boa parte sobre salários. Se o trabalho formal encolher, a aposentadoria perde base de financiamento. O Estado brasileiro está longe de ser um Estado do petróleo: o governo projeta R$ 172,1 bilhões de receitas do setor em 2026, ou 1,3% do PIB. Mas uma economia em que a riqueza venha cada vez mais de máquinas e menos da folha aproximaria o país da dinâmica descrita por Drago e Laine.
Os trabalhadores também teriam pouco com que reagir. A informalidade atinge 37,5% dos ocupados, e só 8,8% dos trabalhadores eram sindicalizados em 2025, contra 16,1% em 2012. Quem não tem contrato nem representação tem menos meios de cruzar os braços.
Há ainda a questão de quem é dono da tecnologia. Se os sistemas forem em grande parte alugados de empresas estrangeiras, parte das decisões e dos ganhos fica fora do alcance do eleitor brasileiro. Um governo pode regular o uso dessas ferramentas, mas tem menos poder sobre quem as constrói.
O país tem, porém, uma defesa importante: instituições. No direito brasileiro, decisões públicas precisam ser motivadas e podem ser contestadas. O desafio será manter essa exigência quando a decisão vier de um sistema automatizado.
Mas não seria maravilhoso viver sem precisar trabalhar?
A inteligência artificial também oferece possibilidades extraordinárias. Máquinas podem realizar trabalhos perigosos e repetitivos, desenvolver medicamentos, acelerar pesquisas e produzir bens a custos muito menores. As pessoas poderiam ter mais tempo para suas famílias, para estudar, criar e viver.
Em 2024, Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, apresentou uma visão otimista no ensaio Machines of Loving Grace. Ele argumenta que sistemas muito avançados poderiam acelerar descobertas médicas, combater doenças, reduzir a pobreza e até fortalecer a democracia. É a visão de alguém que dirige uma empresa do setor, o que deve ser levado em conta, mas a possibilidade merece ser levada a sério.
Fora das empresas de IA, o economista Erik Brynjolfsson, de Stanford, defende em The Turing Trap que o resultado depende do uso dado à tecnologia. Quando a IA amplia a capacidade humana, as pessoas mantêm força para exigir parte do valor criado. Quando apenas as substitui, essa força diminui.
Tudo depende, portanto, de quem ficará com os benefícios. Numa sociedade, a IA produz riqueza suficiente para reduzir a jornada de trabalho, melhorar os serviços públicos e ampliar oportunidades. Noutra, a mesma tecnologia produz riqueza semelhante, mas quase tudo fica nas empresas que controlam as máquinas.
O problema não é simplesmente deixar de trabalhar. É deixar de trabalhar e, ao mesmo tempo, perder renda, influência e participação nas decisões.
O futuro pode ser confortável e, ainda assim, não ser livre
Uma vaca pode viver em uma fazenda bem administrada, com alimento, água, abrigo e cuidados veterinários. Isso não significa que tenha liberdade para decidir o próprio destino.
Uma sociedade administrada por sistemas muito eficientes poderia distribuir recursos, organizar hospitais e reduzir desperdícios. As pessoas viveriam com conforto. Mas o que acontece quando discordam? Quem poderá contestar uma decisão que ninguém consegue explicar? Quem terá autoridade para interromper o sistema?
Numa democracia, não basta que uma decisão seja tecnicamente correta. Ela também precisa ser legítima e passível de contestação. Um juiz deve fundamentar suas decisões. Um governo pode ser derrotado numa eleição. Uma lei pode ser questionada. Esses mecanismos falham, mas existem porque o poder precisa encontrar limites.
Eficiência não é a mesma coisa que liberdade. O risco de nos tornarmos as vacas do futuro aparece quando deixamos de ter meios reais de dizer não.
Podemos evitar esse futuro?
Nada disso significa que a humanidade esteja condenada. Karl Polanyi mostrou, em A Grande Transformação, que a expansão do mercado provoca reações da sociedade, que se organiza para se proteger. A industrialização concentrou riqueza e criou condições duras de trabalho, mas também deu origem a sindicatos, leis trabalhistas e proteção social.
A inteligência artificial poderá exigir mudanças igualmente profundas:
- Distribuir a riqueza produzida pelas máquinas, em vez de concentrá-la nos donos da tecnologia.
- Garantir explicação e contestação de decisões automatizadas que afetem direitos.
- Evitar que poucas empresas controlem toda a infraestrutura de inteligência artificial, com apoio a universidades, pesquisadores independentes e iniciativas abertas.
- Usar a IA para ampliar as pessoas: um pequeno empreendedor competiria com empresas maiores, um cidadão entenderia melhor seus direitos, e um pesquisador faria trabalhos antes impossíveis sem grandes equipes.
Esse futuro é possível, mas não acontecerá automaticamente. Dependerá de escolhas econômicas, políticas e institucionais.
O que acompanhar
- Participação do trabalho na renda: se ela cair enquanto a produtividade sobe, o ganho está indo para outro lugar.
- Concentração da computação: quantas empresas controlam os modelos mais avançados e os grandes centros de dados.
- Decisões automatizadas sem recurso: crédito, benefícios, seguros e serviços públicos decididos por sistemas, sem revisão humana efetiva.
- Peso do trabalho na receita pública: a fatia da arrecadação que vem de salários e contribuições.
- Força dos trabalhadores: sindicalização, negociação coletiva e informalidade em setores expostos à IA.
Afinal, seremos as vacas do futuro?
Talvez, em 10 ou 20 anos, ninguém consiga acompanhar integralmente as decisões tomadas pelas máquinas. Mas isso, por si só, não nos transforma em gado. Hoje já usamos tecnologias que não compreendemos: poucas pessoas sabem construir um avião ou desenvolver um medicamento. Mesmo assim, podemos exigir testes, fiscalização, explicações e responsabilização.
O maior risco pode ser uma máquina que trabalha tão bem, produz tanto e decide tão rapidamente que a sociedade deixa de considerar nossa participação necessária. Isso pode começar com pequenas substituições, cada uma positiva quando vista separadamente.
A pergunta não é apenas se as máquinas serão mais inteligentes do que nós. É se, quando discordarmos delas, ou de quem as controla, ainda teremos poder para mudar alguma coisa.
Referências para aprofundamento
- Calcalist: reportagem sobre a entrevista de Yuval Noah Harari à televisão tcheca, outubro de 2026
- Paul Christiano, What Failure Looks Like (2019)
- Jan Kulveit, David Duvenaud e colaboradores, Gradual Disempowerment (2025)
- Luke Drago e Rudolf Laine, The Intelligence Curse (2025)
- Stuart Russell, Human Compatible (2019)
- Dario Amodei, Machines of Loving Grace (2024)
- Erik Brynjolfsson, The Turing Trap (2022)
- Karl Polanyi, A Grande Transformação (1944)
- Halvor Mehlum, Karl Moene e Ragnar Torvik: memorando da Universidade de Oslo sobre o caso norueguês (2011)
