Entre 50 mil e 60 mil vezes por segundo, conforme o modelo, uma gotinha de estanho derretido atravessa uma câmara sem ar e leva dois tiros de laser. O primeiro a achata. O segundo a transforma num gás dezenas de vezes mais quente que a superfície do Sol. Esse clarão de um instante é a luz que desenha os chips mais avançados do mundo.
60 mil
gotas de estanho por segundo nas fontes mais rápidas em uso
2%
da luz sobra depois de cerca de onze espelhos
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vendedor no planeta: a holandesa ASML
A máquina que faz isso é vendida pela holandesa ASML. O modelo da geração anterior já tem o tamanho de um ônibus escolar e, para chegar ao cliente, ocupa 40 contêineres, 20 caminhões e três aviões de carga. A versão mais nova custa perto de US$ 400 milhões. Nenhuma outra empresa do planeta vende algo igual.
É a máquina mais complexa já inventada pelo homem. Não porque tenha mais peças: nisso ela perde feio. É porque junta, num aparelho só, vários limites do que a ciência sabe fazer, e ainda trabalha todos os dias numa fábrica, dando lucro.
Uma impressora de desenhos minúsculos
Um chip é uma cidade microscópica, com bilhões de componentes ligados por ruas de metal. Ninguém constrói essa cidade peça por peça. Ela é impressa com luz, de um jeito parecido com a revelação de uma fotografia: a luz leva o desenho de um molde até um disco de silício coberto por uma resina sensível.
Pense num pincel: quanto mais fina a ponta, mais fino o traço. Na luz, a ponta do pincel é o tamanho da onda. A indústria foi buscando ondas cada vez menores, até chegar à que essa máquina usa, a luz ultravioleta extrema, conhecida pela sigla EUV.
A luz da máquina tem ondas cerca de 40 vezes menores que a luz verde
Um nanômetro está para o metro como uma bolinha de gude está para o planeta Terra.
Dois tiros numa gota
Essa luz não sai de nenhuma lâmpada, e nenhum laser a produz diretamente. Por isso a máquina faz algo que parece piada: lança gotinhas de estanho derretido, com cerca de um terço da grossura de um fio de cabelo, e acerta cada uma em pleno voo, como quem atira em pratos no ar.
Cada gota leva dois tiros de laser
Um erro de pontaria e aquele clarão não acontece. São dezenas de milhares de acertos por segundo, sem parar.
Os espelhos mais lisos do mundo
Aí surge outro problema: essa luz é engolida por quase tudo. O vidro a absorve, e até o ar. Por isso não dá para usar lentes. Tudo acontece numa câmara sem ar, com a luz pulando de espelho em espelho.
A luz nasce na gota e chega ao disco só por espelhos
Os espelhos são feitos pela alemã Zeiss. Imagine esticar um deles até o tamanho da Alemanha: a maior irregularidade da superfície teria um décimo de milímetro, mais ou menos a grossura de um fio de cabelo.
Mesmo assim, cada espelho devolve só cerca de 70% da luz. É como passar um balde de mão em mão, derramando 30% a cada vez.
Depois de onze espelhos, sobra cerca de 2% da luz
Por isso a fonte de luz precisa ser tão violenta: quase tudo o que ela produz se perde no caminho.
Tudo isso, em ritmo de fábrica
O mais difícil não é fazer isso uma vez. É repetir sem parar. A versão mais nova da máquina já imprimiu 135 discos de silício por hora em testes.
Um chip tem muitas camadas, empilhadas como os andares de um prédio, e cada andar precisa cair exatamente sobre o anterior. Na próxima geração, a meta é errar menos de 0,8 nanômetro, a medida de poucos átomos.
Aliás, o famoso "chip de 2 nanômetros" é mais nome comercial do que medida: as ruas de metal devem ficar a cerca de 20 nanômetros umas das outras. E a TSMC, maior fabricante de chips sob encomenda do mundo, produz essa geração com a versão anterior da máquina.
Um título que muda de dono
O posto de máquina mais complexa do mundo já foi atribuído ao Boeing 747, ao módulo de comando da Apollo, aos submarinos nucleares e ao Grande Colisor de Hádrons (LHC), do Cern. A disputa é justa, e a contagem de peças desmonta qualquer soberba: a máquina da ASML tem cerca de 100 mil. O foguete Saturno V tinha 3 milhões. O ônibus espacial, mais de 2,5 milhões. O reator experimental de fusão ITER, em construção na França, terá 1 milhão de componentes principais e ao menos 10 milhões de subcomponentes.
Em outros extremos, ela também perde. O gás dentro do ITER deve chegar a 150 milhões de graus. E o detector de ondas gravitacionais LIGO mede variações milhares de vezes menores que um próton, uma das partículas do núcleo do átomo.
Só que nenhum desses gigantes foi feito para a mesma prova. Colisor, reator e detector produzem conhecimento. São peças quase únicas, tocadas por cientistas, e têm direito a parar para ajustes. O Saturno V nunca teve mercado: existiu para levar a humanidade à Lua, com dinheiro público.
A máquina da ASML enfrenta outra exigência. Precisa concentrar seus extremos no tamanho de um ônibus, ser repetida em série e render dinheiro para quem a compra. Em 2025, a empresa reconheceu receita de 48 sistemas EUV. Colisores e reatores nunca precisaram provar que se pagam. Por isso a soma pesa a favor dela: mais fronteiras da ciência ao mesmo tempo, em menos espaço e sob a cobrança de uma linha de produção.
Avião tem concorrente. Esta máquina, não
O contraexemplo natural seria o avião comercial, que também é complexo, também é vendido e também mudou o mundo. O 747 teve 1.574 unidades fabricadas. Mas quem quer comprar avião tem escolha: Boeing, Airbus, Embraer, Bombardier e outras disputam clientes.
A máquina EUV tem um único vendedor no planeta. Quem quiser fabricar os chips mais avançados compra da ASML ou não fabrica. As japonesas Nikon e Canon, antigas rivais na litografia, tentaram esse caminho e desistiram dele.
A exclusividade vem de um arranjo difícil de copiar. A ASML funciona como arquiteta e integradora de uma rede de 5.100 fornecedores. Alguns são insubstituíveis: a Zeiss é sua única fornecedora das ópticas críticas, e a ASML comprou 24,9% da divisão de semicondutores da empresa alemã em 2016. Copiar a máquina exigiria reproduzir essa rede inteira, com décadas de conhecimento acumulado.
A China é o teste mais sério. Segundo a Reuters, um protótipo foi concluído no início de 2025 em Shenzhen, com ex-engenheiros da ASML e peças de máquinas antigas compradas no mercado secundário. Ele gera luz EUV, mas ainda não fabrica chips. A meta oficial é 2028, e pessoas próximas ao projeto consideram 2030 mais realista.
Produzir a luz, portanto, já não é monopólio. O que continua sem rival é a máquina inteira, confiável e vendida em série. Mesmo com um Estado inteiro empenhado na tarefa, ninguém chegou lá.
A máquina que fabrica o resto
Aqui está a diferença de natureza. Um avião transporta pessoas e carga. A máquina da ASML ajuda a produzir o componente que entra em celulares, carros, data centers e sistemas de inteligência artificial. Ela é um bem de capital, algo comprado para fabricar outras coisas, instalado no alto de quase toda a economia digital.
Os números dão a medida. Em 2025, a ASML vendeu €32,7 bilhões e lucrou €9,6 bilhões. O mercado mundial de chips somou US$ 795,6 bilhões no mesmo ano, cerca de vinte vezes as vendas da empresa.
Essa proporção é só uma ilustração. Muitos chips dispensam essa máquina, e a ASML também vende aparelhos mais antigos. Mas os chips mais avançados, os que disputam a corrida da inteligência artificial, passam por um funil com um único dono.
Foi esse poder que transformou um fabricante de equipamentos em assunto de Estado. Os Estados Unidos pressionaram a Holanda a não autorizar a venda dessas máquinas à China, e a ASML informa nunca ter enviado uma delas ao país.
O Brasil joga outra partida
O Brasil compra o resultado dessa cadeia, mas não participa do topo dela. Das três grandes etapas da produção de chips, o país tem empresas de projeto e de teste e encapsulamento. Falta a fabricação propriamente dita.
A Ceitec, estatal criada em 2008 em Porto Alegre, nasceu para preencher esse vazio. Desenvolveu capacidade para semicondutores de 350 nanômetros, uma tecnologia madura. Passou anos no prejuízo, entrou em liquidação no governo Bolsonaro e foi resgatada no governo Lula.
Agora a empresa mudou de rota. Em dezembro de 2024, o governo anunciou R$ 220 milhões do fundo federal de ciência e tecnologia, a liberar até 2026, para fabricar chips de carbeto de silício, usados em carros elétricos e painéis solares. Novos equipamentos chegaram entre junho e julho de 2026 e, naquele momento, estavam em instalação. A previsão era começar a produzir no segundo semestre de 2026, mas, em agosto, o presidente da estatal falou em produção a partir do segundo semestre de 2027.
Esses chips não pertencem à vanguarda que a ASML define, nem precisam pertencer. O valor deles está no material, que suporta tensões e temperaturas mais altas, e não em traços de poucos nanômetros. O presidente da Ceitec admite que insistir no silício exigiria um investimento maciço do Estado. As cifras explicam por quê:
O aporte na Ceitec quase não aparece na escala global do setor
Todo o aporte da Ceitec equivale a pouco mais de um décimo do preço da máquina mais nova da ASML, pelo câmbio de R$ 5 usado na reportagem da Folhapress. E essa é apenas uma máquina dentro de uma fábrica.
A escolha brasileira faz sentido. O carbeto de silício serve à transição energética, e o país tem espaço real em projeto e encapsulamento: as associadas da Abisemi, entidade do setor, faturaram US$ 1 bilhão em 2024, e a indústria nacional encapsula 200 milhões de chips por ano. O programa BrasilSemicon prevê R$ 7 bilhões anuais em incentivos.
O erro seria confundir as corridas. Nada disso aproxima o Brasil dos chips de inteligência artificial, que o país continuará comprando de fora. Reconhecer isso é o ponto de partida de uma política industrial séria.
A perfeição tem um endereço
A maior virtude dessa máquina é também seu maior risco. A fronteira da computação depende de uma empresa em Veldhoven, na Holanda, e de uma fábrica de ópticas em Oberkochen, cidade alemã de cerca de 8 mil habitantes. Em documentos enviados ao regulador americano, a própria ASML já admitiu que, sem a Zeiss por um período prolongado, ficaria praticamente impedida de operar.
Dois sinais dirão se esse arranjo vai durar. O primeiro é o protótipo chinês: um chip funcional antes de 2030 mudaria a geopolítica do setor. O segundo é a próxima geração de máquinas, já estudada pela ASML, com preço estimado pela TrendForce em cerca de US$ 720 milhões. Se a conta parar de fechar para os clientes, o gargalo deixará de ser a física e passará a ser o dinheiro.
Foguetes e colisores mostram até onde a humanidade chega quando decide ir uma vez. A máquina da ASML mostra algo mais raro: o limite do conhecimento transformado em produto, com nota fiscal, contrato de manutenção e um único vendedor no mundo.
Fontes
- ASML: resultados de 2025
- ASML: relatório anual de 2025
- ASML: como a máquina produz a luz
- ASML: formulário 20-F de 2015, dependência da Zeiss
- ASML: formulário 20-F de 2020, fornecedora única
- Intel: dados da máquina EUV
- Asia Times: a máquina de US$ 150 milhões
- Trumpf: fonte de luz EUV
- Patente americana: tamanho e ritmo das gotas de estanho
- Reuters, no Yahoo Finanças: a impressora da ASML e o fio de cabelo
- Bits&Chips: gotas por segundo na fonte atual
- Feira World of Photonics: como funciona a litografia EUV
- Silicon Canals: ASML, Zeiss e fornecedores
- Frontier: cadeia de fornecedores da ASML
- Semi-Connect: fonte de luz e espelhos
- TechNews: a versão mais nova na Semicon Taiwan 2026
- Tom's Hardware: roteiro da ASML
- Pause Hardware: TSMC e o processo de 2 nanômetros
- Techovedas: trilhas de metal em 2 nanômetros
- The Engineer: ITER e o título de máquina mais complexa
- Fusion for Energy: componentes do ITER
- Eurekalert: ímãs e plasma do ITER
- BBC: Saturno V
- Relatório do acidente do Columbia: ônibus espacial
- Nature Photonics: LIGO
- Boeing: entrega do último 747
- SemiconductorX: Nikon, Canon e a saída da EUV
- Taiwan News: protótipo chinês, com base na Reuters
- TrendForce: protótipo chinês
- WSTS: mercado de chips em 2025
- Folhapress, no Diário do Comércio: Ceitec e semicondutores no Brasil
- Jornal do Comércio: novos equipamentos da Ceitec
- Hora do Povo: entrevista do presidente da Ceitec
- Adão Villaverde, no Brasil de Fato: custo de uma fábrica nova
